Já alguma vez foste para a cama com um assunto de trabalho na cabeça que não conseguias largar?
Não havia nada a fazer naquele momento. Já sabíamos. E ainda assim lá estava, a pairar. Como se pensar fosse uma forma de trabalhar, como se manter o problema vivo na cabeça fosse produtividade.
É um engano muito convincente. Parece responsabilidade. Parece comprometimento. Mas no fundo é ansiedade disfarçada de dedicação.
À noite é sempre pior. Porque é quando a calma chega, e na calma, na quietude, no silêncio, é quando os temas surgem. O mesmo silêncio que devia ser descanso torna-se palco para tudo o que não foi resolvido, para tudo o que pode correr mal, para tudo o que precisa de ser antecipado.
É paradoxal. É exatamente quando o corpo finalmente pode descansar que a cabeça escolhe trabalhar. E na maioria das vezes, em vão. Um estudo da Universidade da Pensilvânia concluiu que 91% das preocupações que antecipamos não se concretizam. Nove em cada dez.
A mente em modo de vigilância permanente tende a criar problemas antes de eles existirem. E distinguir quando estamos genuinamente a trabalhar e quando estamos apenas a ocupar a mente com o que pode correr mal torna-se cada vez mais difícil.
A ilusão de controlo
Há uma ideia muito enraizada de que se soubermos tudo o que se passa, ficamos mais preparados. Que a informação em tempo real é sinónimo de competência. Que estar sempre a par é estar sempre no controlo.
Mas estar a par de tudo não é controlo. É vigilância. E há uma diferença enorme entre as duas. O controlo real vem da clareza sobre o que é genuinamente importante e da confiança de que o resto está a ser tratado. A vigilância constante, essa, vem do medo. Do medo de que se não estivermos em cima de tudo, algo vai correr mal.
E esse medo tem um custo invisível mas real. Esgota. Dispersa. Impede o pensamento profundo. E curiosamente, quanto mais tentamos estar a par de tudo, menos conseguimos focar no que só nós conseguimos fazer.
Não é defeito, é padrão
Quem vive assim não está errado. Não é fraqueza nem falta de organização. É uma resposta natural a ambientes que exigem disponibilidade constante, a culturas de trabalho que confundem ocupação com valor, a uma sociedade que glorifica quem nunca para.
Reconheceres este padrão em ti não significa que tens de mudar quem és. Significa que talvez o sistema à tua volta precise de mudar para se adaptar a como realmente funcionas melhor.
Porque trabalhar bem não é trabalhar sempre. É trabalhar com clareza, com foco, com espaço para pensar. E isso raramente acontece quando estamos em modo de vigilância permanente.
O que muda quando não tens de estar a par de tudo
Quando há sistemas claros e pessoas de confiança a tratar do operacional, algo acontece de forma quase silenciosa.
A mente liberta-se. Não de responsabilidade, mas do peso de ter de saber tudo em tempo real. E esse espaço que se abre não é vazio, é onde o pensamento estratégico acontece, onde as boas decisões surgem, onde te tornas mais presente no que verdadeiramente importa.
Não é sobre fazer menos. É sobre fazer o que só tu consegues fazer, com a energia e a clareza que isso merece.
Quando foi a última vez que conseguiste trabalhar sem a sensação de que havia algo por verificar, por confirmar, por saber?
Se essa sensação é familiar, talvez não seja falta de organização. Talvez seja falta de espaço.
E espaço raramente se constrói sozinho. 🌿
Fonte: LaFreniere, L. S., & Newman, M. G. (2020). Exposing worry’s deceit: Percentage of untrue worries in generalized anxiety disorder treatment. Behaviour Therapy, 51(3), 413–423. Pennsylvania State University
Imagem por Luís Villasmil

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