Quando simplificar parece mais assustador do que complicar

O primeiro impacto de simplificar costuma ser alívio. Sabemos, quase sempre, que seria melhor. Que temos demasiado, que estamos atoladas, que o excesso de ferramentas, de soluções, de informação está a tornar-se mais problema do que resposta.

E ainda assim, quando chega o momento de simplificar de verdade, a resistência aparece.

Não é má vontade. É hábito. E o hábito tem uma lógica própria que não é fácil de ignorar.

Há uma premissa que reconhecemos em nós mesmas, ainda que raramente a digamos em voz alta: prefiro ficar como estou, mesmo que seja menos bom, porque já conheço isto e sei com o que contar. Em vez de experimentar algo diferente que pode ser muito melhor, mas que não sei bem ao que vou ou como vou lidar.

É uma equação estranha. O desconforto conhecido ganha ao desconhecido potencialmente melhor. Não porque sejamos irracionais, mas porque o cérebro prefere previsibilidade a incerteza, mesmo quando a incerteza aponta para algo melhor.

O exemplo das notificações

Há uns tempos desativei as notificações de quase todas as aplicações. Sou eu que decido em que momentos do dia consulto o que está lá dentro, não o telefone que decide por mim.

Parece simples. E é. Mas antes de o fazer havia uma resistência subtil, e se perco coisas importantes? E se demoro a responder e alguém fica à espera? E se parecer que não estou disponível?

Depois de o fazer, percebo que não perdi nada que importasse. E ganhei algo que não sabia bem que estava a perder: a capacidade de escolher quando dou atenção ao quê.

É isto que a simplificação faz quando resulta. Não retira, dá. Mas o caminho até lá passa sempre pela resistência de largar o que já conhecemos.

O excesso que acumulámos

Vivemos numa era que glorifica o mais. Mais ferramentas, mais soluções, mais formas de fazer a mesma coisa. E há uma pressão constante para estar a par de tudo, para adoptar o que é novo, para não ficar para trás.

O resultado é que muitas pessoas estão a gerir mais do que conseguem processar. E paradoxalmente, esse excesso cria a sensação de que precisam de ainda mais, de uma solução que organize o caos que o excesso de soluções criou.

Simplificar parece assustador neste contexto porque vai contra tudo o que nos ensinaram. Parece retroceder. Parece perder.

Mas há uma diferença entre ter menos e ser menos. E essa diferença vale a pena explorar.

Há algo no teu dia a dia que sabes que seria melhor simplificar, mas que ainda não conseguiste largar?

Talvez o primeiro passo seja apenas reconhecê-lo. 🌿


Imagem por Karola G


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