Fui a um concerto de piano e vi como não sabemos estar em silêncio

Esta semana fui ver o Ludovico Einaudi em Lisboa. Entrei no sala do Coliseu sem grandes expectativas sobre o formato, nunca tinha visto apenas um pianista durante quase duas horas. Fiquei no balcão, por isso não posso falar pela experiência de quem estava noutros lugares. Mas do meu ângulo, foi isto.

Do ponto de vista do artista, foi espetacular. Há algo de muito puro em ver apenas um homem e um piano. Sem banda, sem ecrãs, sem distração. Só música.

Do ponto de vista do público, foi uma das experiências mais dolorosas que já tive num espaço cultural. E não consigo deixar de falar sobre isto.

Antes de entrar em palco, passou um aviso em áudio. Claro, direto: sem fotografias, sem filmagens, sem registo de qualquer tipo.

O Ludovico surge no palco. E imediatamente, imediatamente, começaram os flashes. Como se o aviso não tivesse sequer existido. Como se as regras fossem para os outros, não sendo no fundo para ninguém.

E não parou. Durante quase duas horas, houve flashes constantes, filmagens, cadeiras a ranger, garrafas de plástico abertas sem o mínimo cuidado para que não fizessem barulho, pessoas a mexer-se como se estivessem noutro lado qualquer que não requer silêncio, até telemóveis a tocar. Como podemos ainda em 2026 simplesmente não os colocar em silêncio?

E em vez de serenidade, o meu corpo foi acumulando tensão. A música do Ludovico pede quietude, pede que te rendas a ela. E eu estava constantemente a ser arrancada de volta à sala, ao barulho, ao ruído humano que não parava.

À primeira meia hora, senti que as pessoas estavam perto limite do que conseguiam controlar. O ruído intensificou-se por momentos, os movimentos ficaram mais soltos. Como se o esforço de estar quieto tivesse a chegar ao fim.

E quando o Ludovico fez uma pausa e falou pela primeira vez, um momento especial, foi como se a sala tivesse recebido permissão para o movimento. O seu tom calmo de voz foi invadido pela agitação de quem já não conseguia conter.

Cheguei a um ponto em que desejei que o concerto acabasse. Nunca tinha tido este sentimento num espaço cultural. Foi sofrível.

No fim, quando Ludovico se levantou para agradecer e despedir, a sala inteira pôs-se de pé. Aplausos prolongados, entusiasmo genuíno.

E eu não consegui bem juntar as duas coisas. As mesmas pessoas que durante quase duas horas não respeitaram de certa forma o artista, a arte, nem quem estava à volta, essas mesmas pessoas estão de pé a aplaudir.

O que isto diz sobre nós

Não partilho esta experiência, de forma nenhuma com o intuito de julgar. Ainda assim, não posso normalizar. Porque quando normalizamos comportamentos que prejudicam os outros, estamos a contribuir para que os mesmos continuem.

O que vi naquele teatro foi o reflexo de uma sociedade que não sabe estar em silêncio. Que está tão habituada ao estímulo constante, ao scroll, às notificações, ao ruído de fundo permanente, que o silêncio se tornou fisicamente insuportável. O corpo não sabe o que fazer com ele. Então preenche-o.

Quantas daquelas pessoas colocam o Einaudi nas suas stories do Instagram mas nunca pararam realmente para o ouvir? Não como música de fundo. De verdade, sem mais nada a acontecer em simultâneo.

Porque há coisas que só o silêncio nos dá. Uma música que nos entra diferente quando não há nada a competir com ela. Um pensamento que só aparece quando paramos. Uma presença genuína que não conseguimos ter quando estamos permanentemente a filmar a vida em vez de a viver.

Saí diferente do que entrei. Não só pela música, que foi linda apesar de tudo, mas pela pergunta que não consigo largar:
Quando foi a última vez que estiveste em silêncio de verdade? Não a dormir, não com um podcast, não com o telemóvel na mão.

Só tu. Quieta(o). Presente.

Se esta pergunta te incomoda, talvez valha a pena ficar com ela um bocado. 🌿


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